O Simbolismo do Santo Grall

Ralph M. Lewis, FRC

Uma combinação de lenda, romance e misticismo envolvem o Santo Graal. Fala-se que ele é a lendária taça usada por Cristo na Última Ceia, entretanto, parece haver maiores suportes literários para a interpretação segundo a qual o Graal seria um vaso com que José de Arimatéia coletou sangue das feridas do Mestre Jesus. Nas lendas, algumas vezes o Graal aparece como uma escudela; na verdade há muitas variações em seu significado. Nas fontes mais autênticas, essa palavra está relacionada com a palavra latina crater, ou taça.

Foi durante o período de 50 anos de 1170 – 1220 d.C. que o grande corpo do romance sobre o Graal veio à existência. Entretanto, foi só muito recentemente, em 1861, que textos sobre o Graal começaram a aparecer. A maioria desses textos eram transcrições dos séculos XIII e XIV de um manuscrito feito por Chrétien de Troyes. A maioria das histórias sobre o Graal baseava-se em mitos antigos e isso teve como resultado o aparecimento de quatro heróis diferentes nos relatos: Percival, Gawain, Bors e Galahad, que provavelmente foi uma criação mais recente. Acredita-se que Galahad foi criado por Walter Map, possivelmente como um atributo ao filho de Henrique II.

Conta-se que o Graal foi levado para a Inglaterra por Josef, o filho de José, ou por Brons, cunhado de José. A lenda afirma que o Graal passou de mão em mão de uma geração à outra, e acreditava-se que possuía muitas propriedades místicas. Um relato conta que ele foi usado para alimentar uma multidão de famintos que não estavam em pecado, por meio da multiplicação de uns poucos pães, alimentando 500 pessoas. Os que não eram puros e que olharam para o Graal perderam a voz.

As referências a Percival, um dos heróis associados com a história do Graal, relatam que ele vivia distante da corte real e, portanto, nada sabia a respeito da cavalaria. Um dia, encontrou-se com vários cavaleiros e, à primeira vista, “vendo o esplendor de suas armaduras, tomou-os por anjos”. Subsequentemente, continua a lenda, Percival, Gawain, Bors e Galahad partiram numa busca pelo Graal. Embora se relate que um grupo de cavaleiros da corte do Rei Arthur tenha partido nessa jornada, a Galahad é que foi dada a liderança na busca. Conta-se que eles contemplaram o Graal nas terras do Extremo Oriente. A alma de Galahad foi elevada ao céu por uma grande multidão de anjos. Percival morreu num eremitério e Bors retornou à Inglaterra.

O Graal como iniciador
Como disse, há muitas interpretações do romance do Graal, o qual acredita-se que seja principalmente uma alegoria expondo certos preceitos morais. Há também a teoria da Iniciação. Segundo esta, ele é similar a certos testes e interrogatórios pelos quais passavam os iniciados das antigas Escolas de Mistério. Durante as Cruzadas, os cavaleiros e outros ocidentais entraram em contato pela primeira vez com certos mistérios das antigas Escolas Iniciáticas do Oriente. Nas antigas iniciações aos mistérios faziam-se perguntas aos candidatos, se dessem as respostas corretas, eram então considerados dignos de aprovação e aceitação; se falhassem em responder corretamente ou tivessem segundas intenções, dizia-se então que ficavam sujeitos a determinados efeitos supernaturais ou cármicos. As perguntas e os testes que os buscadores do Graal foram submetidos, na opinião de alguns estudiosos, têm uma forte semelhança com os antigos ritos iniciáticos, especialmente aqueles que continham segredos, parecendo envolver certo conhecimento sagrado.
Há ainda uma outra hipótese com relação ao simbolismo do Graal. Trata-se da ideia de que o Graal representa a busca pelo segredo da vida. Esta seria igualmente remanescente dos antigos segredos buscados pelos alquimistas, tanto físicos como transcendentais, que queriam conhecer os segredos supremos relativos ao propósito subjacente à vida e ao mistério da morte.

O aspecto moral da busca do Santo Graal relaciona-se com “os princípios sacramentais aceitos por toda cristandade e reverenciados como meio através do qual as almas buscadoras da vida de fato encontram a Vida. Consequentemente, o Graal tornou-se o emblema da pureza moral, da fé triunfante, do heroísmo soldadesco ou da caridade graciosa”.

Uma alegoria da natureza do Graal é, naturalmente, compatível com os princípios místicos. Basicamente, o Graal fala de uma pessoa pura buscando o poder e a sabedoria que sua natureza sagrada pode revelar e conceder a ela. Os que não possuíam essas virtudes morais estavam fadados à frustração e a falhar em sua busca. Assim sendo, é fácil substituir o Graal pelo Mestre Interior. Esse termo significa iluminação pessoal, despertar espiritual, o alcançar a Consciência Cósmica ou Unicidade mística com o absoluto. Qualquer uma dessas expressões pode ser misticamente elegível como substituta para o termo Graal. A busca, então, é o puro de coração, a pessoa moralmente correta que procura adquirir o conhecimento maior do eu e sua relação cósmica.

A aventura vivida por Galahad em sua busca pelo Graal pode igualmente ser interpretada como sendo o conflito humano com a sua própria natureza inferior, tentando transcendê-la. Se quisermos dramatizar, ou melhor, criar uma alegoria da busca individual de cada pessoa pelas qualidades espirituais de seu próprio ser, e um canal dentro de nosso próprio ser que conduzisse à consciência cósmica, como também os obstáculos com que nos defrontaríamos nessa busca, então certamente o Santo Graal seria um exemplo excelente.

* Texto extraído da Revista “O Rosacruz”, nº 216, Ano 1996