O poder das palavras

Hideraldo Montenegro, FRC

Causa e efeito
De forma geral, somos muitos descuidados com o uso das palavras. Entretanto, a maioria das coisas que obtemos – como um desafeto, uma amizade, uma demissão, uma promoção, um emprego etc. – são resultados de nossas palavras. Uma palavra otimista, positiva, confiante, generosa, compreensiva e amorosa pode mudar completamente a tendência de um ambiente tenso e depressivo. Podemos reverter radicalmente uma situação através das palavras que emitimos.
Vivemos num mundo barulhento, onde as pessoas, de forma geral, deixam jorrar as palavras ao sabor de suas emoções sem terem o menor controle sobre elas. Vão soltando-as sem se darem o trabalho de avaliar o efeito que causarão.
Há pessoas que se orgulham de não ter “papas na língua”. Confundem sinceridade com grosseria. Vivem ferindo as pessoas e não estão nem aí para aquilo que provocam. Contudo, não conseguem compreender porque encontram tantas resistências, tantas provocações e tantos dissabores. Embora o ditado popular que diz que “quem semeia vento, colhe tempestade” sirva para mostrar a ligação que há entre causa e efeito, muitos, através de suas próprias bocas, continuam semeando discórdia, embora não percebam a origem daquilo que colhem. Também a sabedoria popular ilustra bem este comportamento inconsequente no ditado: “quem fala o que quer, escuta o que não quer”.
Guerras já foram deflagradas por conta de palavras, porém a humanidade segue não percebendo o poder, tanto de destruição, como de união, que existe no seu uso.
Com palavras de amor e compreensão, um ser humano excepcional foi capaz de revolucionar o mundo. Jesus não utilizou outra coisa para transformar a humanidade senão palavras que, até hoje, continuam vivas e atuais.

Sabemos o quanto uma palavra de esperança, de compreensão e de conforto pode auxiliar alguém desesperado. Menosprezar o poder das palavras é desprezar um poder magnífico que manejamos e que pode afetar e alterar radicalmente as nossas vidas.
O aspecto psicológico
Com certeza há um exagero quanto ao verdadeiro poder das palavras. Atualmente existem dezenas de cursos que falam sobre o poder da autoafirmação. Todavia, os princípios aplicados para que, supostamente, uma afirmação promova mudanças significativas em nossas vidas é facilmente verificável como sendo ineficaz, isto porque os verdadeiros princípios que regem as palavras não se baseiam em meras afirmações.
Por exemplo, o fato de alguém afirmar todo dia que vai ganhar na loteria não vai fazer com que este alguém realmente ganhe. Uma simples afirmação não vai substituir a condição de alguém se o seu estado mental não se transformar. Se alguém faz uma afirmação, mas não confia profundamente naquilo que afirma, então a afirmação não é capaz de provocar, atrair ou modificar qualquer coisa que seja.
É evidente que uma afirmação positiva (e, infelizmente, negativa também), repetida todos os dias, pode contribuir para que haja uma mudança efetiva em nosso estado mental. Aliás, acreditamos que, se o nosso estado mental afeta as nossas palavras, as nossas palavras também afetam o nosso estado mental. Mas, neste caso, a palavra apenas está sendo usada como uma ferramenta para criar uma condição (mental) desejável, a qual, por sua vez, realmente provocará mudanças em virtude de nosso estado mental positivo.
Uma palavra pode marcar alguém para o resto da vida. A criança, por conta de sua sensibilidade, é mais suscetível às palavras. Uma palavra dita para uma criança pode determinar o seu futuro. É muito comum, por ignorância, os pais dizerem: “esta menina é um desastre; este menino é muito burro; etc. O nosso subconsciente, ao determinar algo como verdadeiro, cria leis mentais que tentará cumprir à risca.
Ou seja, a nossa responsabilidade quanto ao uso das palavras é imensa – colossal. Através delas, construímos as nossas vidas e afetamos as vidas alheias.
Na maioria das vezes, as nossas brincadeiras com os nossos amigos, infelizmente, são feitas através de palavras que diminuem, menosprezam e criam insegurança. A princípio podemos achar este tipo de brincadeira banal e inofensiva. Entretanto, a longo prazo, os danos interiores de certos tipos de afirmação podem se revelar bastante desastrosos. Precisamos ser bastante cuidadosos com o humor mordaz, pois a melhor forma de criarmos uma lei mental é através do humor. Através do humor, não criamos resistências, e é aí que reside o maior perigo. As palavras que são aceitas, tanto positivas, como negativas, tornam-se verdades para nós. Toda verdade, definida por nós, torna-se uma lei para a nossa mente, não importando se esta “verdade” tem qualidades positivas ou negativas.

O aspecto espiritual
Jesus, em sua imensa sabedoria, disse: “o mal não é o que entra na boca do homem, mas o que dela sai”. A palavra põe em movimento a energia esboçada pela mente. Precisamos ser senhores das palavras. No entanto, para sermos senhores das palavras precisamos, antes, nos tornar senhores de nossas emoções.
Se não controlamos nem a nossa própria mente, como poderemos controlar o uso das palavras? Isto significa que precisamos ter sempre serenidade mental para usarmos as palavras com sabedoria. Ou seja, de nada adianta termos conhecimento da importância do uso das palavras se formos incapazes de controlarmos os nossos impulsos.
Entretanto, independente do domínio que tenhamos sobre nós mesmos, existem palavras negativas e positivas e, queiramos ou não, colhemos os frutos das palavras que emitimos. Somos os responsáveis, portanto, pela qualidade de nossas colheitas. O fato é que a prática de palavras positivas pode transformar completamente as nossas vidas.
Aqui não podemos esquecer as palavras mais belas que já foram ditas por um ser humano e que nos servem como reflexão diária:

“Senhor,
Faz de mim um instrumento de tua paz!
Onde houver ódio, que eu leve amor.
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.
Onde houver discórdia, que eu leve a união.
Onde houver o erro, que eu leve a verdade.
Onde houver dúvida, que eu leve a fé.
Onde houver desespero, que eu leve a esperança.
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.
Ó senhor, que eu não busque tanto ser consolado quanto consolar,
Ser compreendido quanto compreender,
Ser amado quanto amar,
Porque é dando que se recebe,
É esquecendo de nós mesmos que nos encontramos,
É perdoando que somos perdoados,
E é morrendo que renascemos para a vida eterna.”
São Francisco de Assis